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De onde mesmo?

Martha Medeiros

Eu não troco apenas os nomes das filhas, dos amigos e das coisas, sou também uma péssima fisionomista.

Dois anos atrás escrevi uma crônica em que eu comentava minha dificuldade em acertar os nomes das pessoas. Troco o nome das filhas, das amigas e até o nome das coisas. Criei um vocabulário próprio, que funciona por assemelhação: em vez de dizer “me passa teu prato”, eu digo “me passa teu braço” e ninguém já nem ri destes meus vacilos, tão comuns eles se tornaram no meu dia-a-dia. Aliás, no meu e no de muita gente, pois na época não foram poucos os e-mails que recebi de leitores dizendo: “Que bom, então não sou só eu”. É, companheiros, somos muitos.

Mas hoje venho falar de uma outra dificuldade que me causa um constrangimento infinitamente maior: além de trocar nomes, sou péssima fisionomista. Basta tirar alguém do contexto em que a conheci para custar a reconhece-la. Parece desculpa esfarrapada de uma antipática nata, mas não é o caso.

Exemplos? Sente aí que tenho alguns pra contar. Na ginastica, por exemplo. Malho numa academia enorme. Às vezes alguém vem conversar comigo e – aí de mim – não faço ideia de quem seja a pessoa. Uma fotógrafa com quem já fiz um trabalho, uma dona de galeria de arte, uma conhecida da minha mãe, uma ex-vizinha: meu Deus, de onde mesmo conheço estas criaturas??? Só as identifico no seu habitat de origem, vestindo roupas civis. Mas suando, de top de lycra e cabelo preso, fora do contexto habitual, me dá um branco. Neste pé anda minha esquizofrenice.

A recepcionista do meu médico: há 20 anos que eu a vejo com o mesmo avental, sentada atrás de mesma mesa. Outro dia cruzei com ela no shopping, retribuí seu cumprimento com um belo sorriso e depois quase caí de cama tentando lembrar: de onde, pelo amor de Deus?

Se encontrar o porteiro do meu prédio circulando pelo Brique da Redenção, a ficha não vai cair. Se cruzar no aeroporto com alguém que só vejo no salão de beleza, há grande chance de eu dar oi sem ter ideia de quem seja. Um primo em terceiro grau que só vejo em casamentos e velórios, portanto, quase nunca: passei por ele no supermercado outro dia e percebi que ele não me era estranho, mas o nome e o grau de parentesco não me ocorreram na hora. Ele, gentilmente, reativou minha memória, enquanto eu queria sumir de vergonha.

E a beira da praia? Todo mundo de óculos escuros e boné, podendo ser tanto a Madonna quanto uma ex-colega de faculdade.

Claro que isso não acontece a todo instante e tampouco com pessoas do meu convívio diário, apenas com quem me relaciono pouco. Mas é um vexame, principalmente para quem, como eu, preza a boa educação. Portanto, isto não é uma crônica, e sim um pedido público de desculpas. E uma tentativa de descobrir, mais uma vez, se é só comigo.


Domingo, 17 de outubro de 2004.



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